“Selecção feminina. Há vida para além do futebol”, in jornal i

A selecção nacional feminina joga hoje [no Sábado] com a Itália. O i foi conhecer o que elas fazem fora das quatro linhas

Carla Couto é a mais internacional. Já representou a selecção por 124 vezes

Carla aparece junto ao portão de ferro numa bata aos quadrados cor-de-rosa que lhe dá pelos joelhos. Junto à barra inferior do bibe, duas nódoas de tinta de cores diferentes saltam à vista. Obra de algum miúdo mais criativo que decidiu não se cingir à folha de papel, pensámos. A touca na cabeça com que nos recebe é sinal de que chegámos em má altura. Oitenta crianças gritam com fome do outro lado da grade. Era hora de almoço, Carla estava atarefada.

A auxiliar educativa nasceu dias antes de a Revolução dos Cravos rebentar nas ruas de Lisboa. Antes da liberdade, pouco ou nenhum crédito era dado às mulheres que jogavam futebol. Agora, recorre-se a lugares comuns para caracterizar uma modalidade em mudança: “Os tempos são outros. As pessoas começam a dar cada vez mais valor ao futebol feminino. Alguns jogos já são transmitidos na televisão e o impacto é sempre maior. As pessoas comentam, falam sobre nós”, explica a jogadora que há mais tempo alinha pela selecção nacional feminina de futebol. Carla Couto começou a jogar com 19 anos. Hoje, com 35, é uma das mais velhas da formação. No currículo há experiência de sobra, jogou no Sporting Clube de Portugal, no Trajouce, de Cascais, no Futebol Benfica, foi para a China, voltou, e fez uma pré-época no Arsenal, em Londres. Mas há 14 anos que veste a camisola do clube sintrense, o 1.o Dezembro, onde é subcapitã. “O futebol é o meu hobby, mas a minha profissão é esta”, sorri. Carla deixa-nos por momentos e espreita pela porta do infantário, fiscalizando a empreitada de dar de comer a tantas crianças. “Peço desculpa, mas a esta hora é sempre tudo muito complicado e hoje, por azar, só estou eu e outra colega”, explica, retirando novamente a touca da cabeça.

A futebolista trabalha há três anos no Jardim Infante da Anta, no Cacém. É uma das responsáveis pelo acompanhamento pedagógico e pela vigilância de crianças entre os cinco e os seis anos. Quando o dia de trabalho chega ao fim e não há mais crianças a correr pelos corredores, faz-se a limpeza do espaço. Talvez um dia não haja mais futebol. O tempo não perdoa, mas Carla não vacila. “Não há limite. Cada jogadora tem de ter consciência de até onde pode ir. Toda a gente sabe que a carreira de futebolista é curta”, diz a avançada. Mas a Carla não falta energia e com uma bola da Coca-Cola retirada de entre o amontoado de brinquedos do jardim- de-infância começa a dar cabeçadas de fazer inveja a muita gente.

OS RAPAZES Carole continua a gostar mais de jogar futebol com rapazes. “Eles são mais competitivos, dão mais luta, aprende-se mais”, sorri a defesa de 19 anos, sentada no sofá do Quiaios Hotel, junto ao centro de estágios onde a equipa se preparou ao longo da semana para o jogo de hoje contra a Itália, com vista ao apuramento para o Mundial do próximo ano. “Comecei a jogar aos 13 numa equipa de rapazes, mas tive de mudar para poder continuar a jogar a um nível superior”, conta-nos, enquanto passa os dedos pelo cabelo molhado, rematados pelas unhas pintadas entre o vermelho e o rosa forte. “Agora é diferente, jogo com raparigas e a competição é maior. Sinto que tenho crescido imenso com as jogadoras mais experientes.” Carole Silva Costa estuda na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. É natural de Braga e o sotaque não deixa esconder as origens. Carole, descontraída, parece não ter idade para preocupações (para além de não poder comer batatas fritas durante a semana de preparação), mas ainda assim há uma que a assalta de vez em quando. “Às vezes pode tornar-se complicado andar sempre de um lado para o outro com a selecção. Quando fico muito tempo em estágio e depois volto à faculdade apercebo-me de que na maior parte das vezes perdi grande parte da matéria. Então tenho de pedir os apontamentos aos meus colegas e andar a fotocopiar textos”, conta, referindo que as novas tecnologias são uma grande ajuda. “Os meus professores já me mandam os powerpoints e as aulas para o mail”, ri.

OS TROFÉUS Joana está do outro lado da sala de aula. É professora de Educação Física na EB1 Oliveira, perto de Barcelos. “Os meus alunos ficam surpreendidos quando descobrem que jogo na selecção nacional. Uma vez pediram-me para levar os troféus para a escola, queriam ver, estavam muito curiosos”, diz-nos a futebolista do Leixões SC. “Acho que a fase ‘do futebol é só para homens’ já acabou. As pessoas estão mais atentas e mesmo os meus miúdos, que têm seis e sete anos, já perceberam isso.” Joana Carvalho, 24 anos, que joga como médio na selecção, ainda não viu entraves à realização das duas paixões. “Neste momento estou a conseguir conciliar a profissão com o futebol. De vez em quando tenho de pedir a alguém para me substituir na escola, mas sei que um dia vou ter de fazer opções”, desabafa antevendo o futuro. E por qual delas vai optar? “Essa é a pergunta mais difícil de todas”, ri. “A selecção nacional é óptima, mas não é certa. Não vai durar a vida inteira, infelizmente”, suspira.

 

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