“Em Linha com” Fernanda Piçarra

Fernanda Piçarra é a Técnica Principal da equipa de Futsal Feminino do C.R.C. Quinta dos Lombos. Para quem não tem por hábito acompanhar esta modalidade, podemos referir que esta foi uma época de sonho para a equipa de Carcavelos (2008/2009). Ganharam o Distrital de Futsal ao todo-poderoso Benfica, tendo chegando até às meias-finais da Taça Nacional onde perderam num jogo de nervos e dramáticas reviravoltas.

Fernanda Piçarra, foi atleta de modalidades como o Futsal, o Futebol de 11 e o Andebol, mas foi no primeiro que começou a deixar a sua marca. Aos 45 anos já conta com quase duas décadas como Treinadora de Futsal Feminino, tendo treinado equipas como o Costa do Estoril ou o Clube Nacional de Ginástica antes de ingressar na Quinta dos Lombos, e com este clube vencer inúmeros troféus.

A Técnica do C.R.C. Quinta dos Lombos está na génese da recuperação da equipa de Juniores Femininos daquele clube (acumulando o cargo de Coordenadora Técnica do Departamento de Futsal Feminino do CRCQL), bem como da criação de uma equipa de Juvenis Femininos, contribuindo para o aumento de praticantes bem como para o desenvolvimento/crescimento do Futsal Feminino.

Fernanda foi, ainda, uma das vozes sonantes do movimento pela inclusão das modalidades de Futebol Feminino nos Jogos da Lusofonia. Quem não se recorda da petição que circulou há cerca de um mês? Já ultrapassou os 2000 assinantes na Internet e os 3000 em papel. Dia 7 de Julho será levada à Assembleia da República, muito por força de Fernanda Piçarra.

Fernanda Piçarra, Técnica Principal do C.R.C. Quinta dos Lombos (Fotografia © CRCQL)

Fernanda Piçarra, Técnica Principal do C.R.C. Quinta dos Lombos (Fotografia © CRCQL)

“FUTSAL E FUTEBOL, JUNTOS? PORQUE NÃO?”

«A maioria das pessoas pensará que sou pró-futsal e anti-futebol de 11. Como em tudo na vida, a nossa perspectiva é sempre influenciada consoante o local onde nós nos posicionamos. Quando vejo os jogos do campeonato inglês e vejo o  Sir Alex Ferguson a observar primeiro o jogo da bancada e, depois descer para o banco, invejo-o pela oportunidade que tem em ter uma perspectiva bem  mais global do jogo do que o que  temos à superfície. Bem perto do campo a nossa visão é reduzida. Isto adequa-se à generalidade da vida nas diferentes hierarquias e sectores em  que se divide a nossa sociedade.

O Futebol, em conjunto com o Futsal, é a modalidade colectiva, no escalão sénior feminino, mais praticada em Portugal. As jogadoras quando praticam a modalidade fazem-no, por opção própria, isto poderá, em boa parte, explicar esta evidência e a pirâmide invertida do número de praticantes/escalão em relação às restantes modalidades colectivas.

A perspectiva das jogadoras será sempre: deixem-nos jogar à bola! Porque não jogam desde mais novas?

Esta é a grande questão e a que deveria unir as duas modalidades. Actualmente, até aos 12 anos as raparigas podem jogar com os rapazes. Porque é que não há mais raparigas a fazê-lo? Será que da parte das famílias há incentivo? Quem poderá mudar essa mentalidade? Lá vamos nós ter de subir mais um pouco na perspectiva. O incentivo à prática desportiva por parte da mulher deveria ser uma questão cívica e educativa.

Se até aos 12 anos existe a possibilidade da prática da(s) modalidade(s) e, bastaria mudar um pouco as mentalidades para garantir uma boa base de recrutamento,  a partir daí é um vazio enorme. A partir do momento em que entram os clubes, a competição, a escassez de recursos, e a comparação entre modalidades e género , o desporto feminino está numa desvantagem enorme e não consegue competir com poderes e mentalidades instaladas, a não ser que o estado intervenha com uma discriminação positiva de forma a conseguir projectar o desporto feminino para que este consiga atingir a qualidade desejada. Esta tem de ser necessariamente uma questão política.

Quando iniciámos a taça nacional, ficámos dois dias no Algarve, antes de irmos para Évora para disputar a 2ª jornada: a frase mais ouvida era “podia fazer disto a minha vida”. Existem jogadoras portuguesas que já o fazem, mas têm de ir para fora do país. Penso que temos o direito de lutar pelos nossos sonhos e de criar condições para que isso seja possível, seja em que modalidade for. Afinal, há poucos anos nem possibilidade de votar tínhamos…

Pessoalmente, acho que a Federação e a Prof. Mónica Jorge estão a aproveitar bem a imagem dela para divulgar o Futebol Feminino mas, para haver repercussões estruturais, não podem ser meras acções pontuais e, têm de ser muito bem definidas e, consertadas com estratégias que visem a mudança de mentalidades e a consecução de condições para que os Clubes apostem no desporto feminino. Enquanto isso não acontecer o desporto feminino será sempre o parente pobre em qualquer clube.»

Fernanda Piçarra – Treinadora de Futsal Feminino do CRCQL

2 de Julho de 2009

Da nossa parte, MUITO OBRIGADA!

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