Entrevista: Professor Nuno Cristóvão

Professor Nuno Cristóvão e Selecçção Nacional A 2003

Professor Nuno Cristóvão com a Selecçção Nacional A 2003

Contactámos o Professor Nuno Cristóvão com o objectivo de lhe colocar algumas perguntas que nos permitam, por um lado, recordar a pessoa importante que foi para o Futebol Feminino, por outro, conhecê-lo um pouco melhor enquanto treinador e, por fim, saber mais dos seus objectivos e espectativas para a temporada 2009/2010.

Para os mais desatentos, Nuno Cristóvão foi Seleccionador Nacional entre 2000 e 2004 e será o treinador principal da equipa feminina do S.U. 1º Dezembro para a época 2009/2010.

Nuno Cristóvão é professor de Educação Física e treinador de futebol cujo conhecimento se estende ao 4º Nível UEFA Pro.

Sobre o regresso ao Futebol Feminino e a equipa feminina de futebol do S.U. 1.º Dezembro

1. Esteve por dois momentos diferentes ligado ao Futebol Feminino. Em algum deles pensou que seria possível regressar?

No Futebol, como na vida, tudo é possível. Depois de sair do Grupo Sportivo de Carcavelos em 1987 não pensei que voltasse a treinar uma equipa de futebol feminino, pois a minha aposta estava inteiramente virada para o futebol de formação masculino. Foi por isso uma enorme surpresa quando em 8 de Setembro de 2000 fui convidado para o cargo de Seleccionador Nacional Feminino. Depois de em Junho de 2004 sair da FPF voltei ao futebol masculino (primeiro nos seniores e depois novamente na área do futebol jovem) e só colocava a hipótese de voltar ao futebol das mulheres e raparigas num projecto ambicioso em termos desportivos.

2. Como se proporcionou este regresso ao futebol feminino, especificamente ao 1.º Dezembro?

 A Secção de Futebol Feminino da S. U. 1º Dezembro apresentou-me um projecto bem estruturado, coerente, com objectivos bem definidos e orçamentado. Depois de o estudar apresentei alguns contributos no sentido de o melhorar e concluímos que este regresso poderia ser bom para ambas as partes.

3. O que o fez aceitar o convite?

A ambição de ir mais longe. O facto de ter objectivos claros e muito ambiciosos.

4. Sabemos que estará connosco, pelo menos, três anos. Em linhas gerais, quais são os projectos que espera poder realizar no 1.º Dezembro?

Os projectos no Futebol, na minha perspectiva, estão sempre relacionados com os objectivos. E eles só têm hipótese de ser alcançados se todos os intervenientes (desde os responsáveis da Secção à técnica de equipamentos, com as jogadoras a assumirem um papel decisivo) estiverem sintonizados na sua obtenção. Assim, em primeiro lugar, é preciso conquistar as competições internas (Campeonato e Taça). Só ganhando o Campeonato Nacional se pode aspirar à competição internacional. Depois ultrapassar a pré-eliminatória da Liga dos Campeões, sabendo que existem sempre múltiplos factores que condicionam esta competição e alguns deles não são controláveis. Por último fomentar a formação de jovens atletas para a prática de Futebol desde cedo. O 1º Dezembro tem a melhor equipa feminina portuguesa e assim quer continuar. Dessa forma torna-se necessário dar passos no sentido de continuar a encontrar jogadoras que de uma forma coerente e sustentada, tragam novas coisas há equipa e lhe permitam continuar no topo. Por último não posso deixar de falar num projecto que apelidaria de “relações internacionais”, que me parece muito importante para esta equipa, por variados motivos.

5. Do que já observou, o plantel do 1.º Dezembro dá-lhe garantias de poder desenvolver um trabalho com vista à obtenção dos objectivos que forem traçados pela equipa técnica, em consonância com o clube?

Estamos a falar da melhor equipa portuguesa. Os objectivos imediatos estão definidos e foram já referidos. Para já as actuais jogadoras são as que pertencem ao plantel. É com elas que vamos trabalhar e cabe a elas mostrarem que têm capacidade para atingir essas metas. Apesar de já terem ganho tudo o que havia para ganhar, não acredito que tenham perdido a ambição de ir mais longe, tanto em termos individuais como colectivamente. É evidente que qualquer equipa pode sempre ser melhorada e reforçada. O tempo (como diz o nosso povo “é sempre um bom conselheiro”) e o evoluir do trabalho dir-nos-á se é preciso reformular algum aspecto.

6. Os treinos abertos permitiram-lhe uma breve observação do plantel. Já conhecia a equipa 2008/2009?

E o que diz quanto à observação das jogadoras novas? Como sabem observei alguns jogos no final da época, o que me permitiu conhecer sobretudo as jogadoras que ainda não jogavam na altura em que exerci funções na FPF. Como referiram, os treinos só permitiram uma breve observação, daí que continuaremos a ver as jogadoras novas na fase inicial dos trabalhos da nova época para podermos ter dados mais fortes e concretos relativamente às mesmas. O que me parece importante referir é que essas novas jogadoras vêm certamente colocar novos desafios à equipa e a elas próprias.

7. Quantas jogadoras pretende que integrem o plantel 2009/2010? Já estão escolhidas as jogadoras de entre as três dezenas que tem à disposição?

De forma a poder trabalhar com mais qualidade, o plantel não deverá ser muito extenso e será formado por cerca de 23 a 25 jogadoras. A base da equipa está definida. Não seria muito inteligente nem aconselhável, numa equipa campeã, fazer alterações significativas. Há, no entanto, alguns aspectos a melhorar, pois nenhuma equipa é perfeita e que serão clarificados, como disse, no início da época.

8. O 1.º Dezembro vai iniciar a época em Junho com vista à pré-eliminatória da Liga dos Campeões, com novo formato a começar este ano. Acha que será mais aliciante e motivador que o formato anterior? Poderá o 1º Dezembro aspirar a conseguir um resultado inédito?

 A Liga dos Campeões é a primeira vez que se vai realizar. Até agora a competição chamava-se Taça UEFA. E este pode ser um aspecto insignificante mas não o é. Basta estar atento às questões financeiras envolvidas, bem como à fórmula adoptada para disputa desta prova. Só por isso torna-se diferente. O formato previsto pode abrir novas perspectivas a equipas que normalmente não chegavam à fase de grupos da Taça UEFA. Basta recordar que quando o 1º Dezembro foi eliminado dessa fase pelo Montpellier (perdendo 0-1 em Massamá), esta equipa chegou às meias-finais da prova. Quanto às possibilidades da nossa equipa é preciso não esquecer que Portugal se situa na posição 30 da lista de acesso e que terá sempre de disputar a pré-eliminatória. Como disse atrás há múltiplos factores que condicionam esta competição e alguns deles não são controláveis (como por exemplo os adversários, o local onde se disputa essa pré-eliminatória, o número de equipas inscritas e outros). Neste momento nem conhecemos ainda o regulamento, nomeadamente o número de equipas que são apuradas nas pré-eliminatórias (está dependente do número de equipas inscritas) nem tão pouco com quem temos de nos defrontar. Parece-me por isso prematuro avançar com previsões de resultados. O que sinto é que as jogadoras têm uma enorme ambição de fazer história, como posso assegurar que a equipa técnica não vai poupar esforços para preparar essa competição com grande rigor e profissionalismo. E só dessa junção de esforços, com a qualidade do trabalho que possamos desenvolver, é que podemos atingir os objectivos. Só a vontade de fazer coisas bonitas e potencial das jogadoras não é suficiente.

9. A constituição da equipa técnica dá-lhe garantias de desenvolver um bom trabalho, aos vários níveis?

 Com certeza. Ela foi constituída com base em critérios de qualidade e competência. Logo as garantias de desenvolvimento de um trabalho sério, profissional e rigoroso são totais. Falta agora a correspondência por parte das jogadoras. E pelo que conheço essa não vai faltar. É muito importante a equipa técnica trabalhar bem mas é também muito importante que as jogadoras coloquem novos desafios a essa equipa técnica. Dessa simbiose nasce uma equipa mais forte. É isso que pretendemos fazer pois a fasquia encontra-se muito alta. Só assim podemos superar-nos.

10. Foi uma agradável surpresa o convite feito à nossa jovem treinadora Diana Dias para completar a sua equipa técnica. O professor, tal como fez com Mónica Jorge, continua a apoiar a formação de treinadoras. Porque razão?

Porque acho essencial que as(os) jovens treinadoras(es) possam ter oportunidades de crescer e evoluir. E o que acontece com frequência é que essas oportunidades não surgem. Eu tive a sorte de em certo momento da minha vida como treinador ter a oportunidade de trabalhar com gente muito competente e profissional. E, se puder, não deixo de dar essa oportunidade a quem queira e mostre vontade em aprender e trazer ideias novas, sabendo sempre que não vai ser mais um(a) mas sim um(a) treinador(a) com voz activa no processo de treino. Estando a Diana no clube, tendo acompanhado o trabalho da época passada e estando disponível, não fazia sentido não aproveitar a sua disponibilidade.

Sobre o futebol feminino em Portugal

1. Quais são, na sua opinião, as diferenças significativas que observa do que “deixou” em 2004 para o período actual?

Não consigo fazer uma avaliação séria, pois apesar de nunca nos afastarmos completamente do processo desportivo, o que é verdade é que, intencionalmente, não tive intervenção activa no futebol feminino desde essa altura. Em termos objectivos o que se vê é que a selecção de sub-18 foi extinta, que o número de jogadoras se manteve idêntico ao momento em que saí da FPF e que foi aprovada uma proposta de quadro competitivo diferente. A partir daqui tudo o que eu possa dizer nesta altura enferma de falta de objectividade.

2.  Como explicaria a supremacia do 1.º Dezembro nos últimos anos?

Essa supremacia vem já do tempo em que fui responsável pelas selecções nacionais e foi reforçada posteriormente. Penso que tem sobretudo a ver com a qualidade das jogadoras, com a qualidade das treinadoras que o clube teve e com a forma como o clube se preparou e organizou durante este período.

3. O quadro competitivo para a próxima época sofreu alterações que se espera que se venham a reflectir na competitividade da 1ª Divisão. Pensa que isso será possível no ano de mudança?

Aguardemos para ver. Este novo quadro competitivo prevê para as equipas que disputarem a fase de campeão 24 jogos (mais 4 que actualmente – pelo menos mais um mês de competição). E ter mais jogos durante o ano é sempre bom. Se vão ser mais equilibrados e competitivos o futuro o dirá. Mas na minha opinião há outros factores que podem elevar a competitividade e sobretudo a qualidade e que não podem ser descurados, como por exemplo, entre outros, o piso em que os jogos se disputam e as dimensões dos campos. Não me parece muito positivo que os jogos se continuem a disputar em pisos não relvados. E no Campeonato Nacional Feminino, em 2009/2010, ainda haverá muitos campos pelados e outros que são autênticas “caixas de fósforos”. E isso não é bom para a evolução e sobretudo para o desenvolvimento e promoção do futebol feminino. Poderão dizer que defendo isto porque treino a equipa campeã nacional e com essas condições terei mais hipóteses de ter sucesso. Quem me conhece sabe que penso desta forma há muito tempo e que o que me conduz é o desenvolvimento desportivo. Dei esse exemplo concreto quando treinei equipas de dimensões inferiores e tive de me defrontar com equipas qualitativamente superiores. A proposta que vai ser apresentada à Assembleia-Geral da FPF prevê essa alteração para a época 2010/2011, que naturalmente saúdo. Esperemos agora pela sua aprovação.

4. Como vê o estado actual do futebol feminino em Portugal? Ouvem-se expressões como “nova era” e “tempos de mudança”, “investimento federativo”. Concorda?

Tal como referi numa pergunta anterior não consigo fazer uma avaliação séria, pois há dados que não domino, para lá do tempo de afastamento voluntário e intencional. No entanto posso dizer que sempre que há novos(as) técnicos(as) há uma “nova era” e os “tempos são de mudança”. É normal que isso aconteça. Foi assim no ressurgimento da Selecção AA Feminina com o António Simões, em seguida com a entrada da profª Graça Simões, depois comigo, a seguir com o José Augusto e agora com a Mónica Jorge. Se essa “nova era” e esses “tempos de mudança” vão no sentido positivo não é a mim que me compete dizer. São as pessoas ligadas ao fenómeno, que nele intensamente participam e que continuam a mantê-lo “vivo” que devem pronunciar-se sobre as expressões que referiram. E como sabem há 5 anos que não estou por “dentro” do futebol das mulheres e raparigas.

5. Pode partilhar connosco algumas das medidas, das que considera mais importantes, que pensa ser possíveis para fomentar, desenvolver e divulgar o Futebol Feminino português?

Com todo o respeito que me merece essa pergunta e sem querer fugir à mesma, não sou eu que devo responder a essa questão. Existem outras pessoas que se devem pronunciar sobre a mesma. A mim compete-me apresentar medidas no que diz respeito ao 1º Dezembro. A única coisa que poderei dizer a esse respeito é que quando fui Seleccionador Nacional, com a ajuda de muitas pessoas, apresentámos (e falo no plural porque foi assim mesmo) um Projecto de Desenvolvimento para o Futebol Feminino para a próxima década, que continha 9 pontos: aspectos institucionais e organizacionais, promoção, formação, praticantes, arbitragem, quadro competitivo, apoio financeiro e selecções nacionais. Relembro que entrei na FPF em Setembro de 2000 e esse projecto foi apresentado a todos os sócios ordinários da mesma numa Assembleia-Geral realizada em finais de Janeiro de 2001. Quem leu esse documento conhece o meu pensamento.

6. Sem formação… O que lhe ocorre dizer para completar a frase?

… não há futuro.

7.  Como tem visto os resultados das nossas Selecções? Estará para breve uma possível qualificação para um grande evento?

Tenho visto com naturalidade. Os resultados são dados objectivos que não permitem leituras subjectivas. Quanto à segunda parte da pergunta a minha resposta é: gostaria muito.

8. Sabe-se que as equipas femininas apresentam grande qualidade técnica mas depois quebram fisicamente. Será possível combater esta tendência? E como se pode fazer isso?

O Futebol é um jogo dinâmico com vários factores envolvidos. Nalguns jogos uns factores têm maior preponderância que outros no que concerne aos resultados obtidos. Em cada competição tentamos valorizar os nossos pontos fortes e aproveitar os pontos fracos do adversário. O que há a fazer é treinar mais e melhor para que os factores menos desenvolvidos possam ser melhorados. Parece-me a forma mais correcta de ultrapassar dificuldades. E recordo que há muitos factores envolvidos para lá dos físicos e/ou dos técnicos.

9. A diferença entre compleições físicas é uma justificação frequentemente encontrada para justificar resultados menos positivos. Fará sentido?

Cada um joga com as “armas” que tem. É sabido que quem é mais alto, mais forte e mais rápido está sempre mais perto de vencer. Da mesma forma, quem joga melhor também está mais perto da vitória. Resta a cada treinador pôr em prática, com a sua equipa – as(os) jogadoras(es) são fundamentais nesse processo, porque são elas(es) que estão em campo – uma estratégia para obter os resultados que pretende.

10. Tem acompanhado a WPS? O que pensa da competição profissional norte-americana? Uma utopia para o nosso país ou, quem sabe, daqui a alguns anos podemos pensar nisso?

 Tenho acompanhado através das notícias veiculadas pelos vários blogues ligados às equipas femininas. Esta é a segunda competição profissional levada a cabo nos EUA. Espero que não tenha o fim da primeira. Em relação à competição profissional em Portugal não me parece que isso possa vir a ocorrer nos tempos mais próximos. Basta ver o que ocorre com várias ligas profissionais de outras modalidades.

Uma palavra para o blogue da equipa feminina da S.U. 1.º Dezembro?

É um espaço de informação que pode ser importante, tanto a nível interno como externo. Tenho muita pena que no tempo em que estive na FPF não houvesse esta possibilidade de nos informarmos. Como tudo na vida há evolução e só me resta dizer: parabéns e continuem.

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