Entrevista a Edite Fernandes, profissional de futebol e internacional AA

Edite Fernandes, 29 anos, capitã do Praisa Saragoza (Espanha) e sub-capitã da Selecção Nacional de Futebol Feminino

Edite Fernandes, 29 anos, capitã do Prainsa Saragoza (Espanha) e sub-capitã da Selecção Nacional de Futebol Feminino

Sobre a aventura em Espanha

1. Como é ser profissional de Futebol Feminino e como foi a adaptação à Superliga de Fútbol Femenino? Tiveste de aumentar os níveis físicos e técnicos para te colocares ao nível das outras jogadoras?

Ser profissional de futebol feminino é muito semelhante ao que imaginamos nas equipas masculinas, a diferença está nos “milhões”. De resto treinamos diariamente, e no fundo vivemos do futebol como se fosse um trabalho normal. Já vivi outras experiências como profissional de futebol, por isso levo com alguma naturalidade esta vida.

A adaptação foi tranquila, até porque fomos bem recebidas na equipa. Em termos físicos houve um aumento de cargas e treinos em relação ao que estávamos habituadas, mas conseguimos adaptar-nos e ultrapassar muito bem os testes que nos eram colocados. Quando há qualidade e vontade, as coisas saem sempre bem.

 2. Por que objectivos luta o Prainsa Saragoza?

A nossa equipa tem como objectivo principal ficar nos 8 primeiros lugares, que dão acesso directo à Taça da Rainha. Como somos ambiciosas, queremos fazer sempre mais e melhor. Neste momento estamos em quinto, logo a seguir aos “colossos” da Superliga Femenina (Español, Bilbao, Levante e Rayo Vallecano), o que por si só já é um feito para este clube. Queremos manter esta posição até ao final, visto que faltam apenas 2 jogos.

3. O que achas que as atletas portuguesas acrescentaram à equipa?

Acho sinceramente que as jogadoras portuguesas ajudaram a aumentar o nível da equipa. Talvez em termos de experiência competitiva e internacional, mas também digo, com toda a justiça, que a equipa tem muito boas jogadoras espanholas. Também têm qualidade e contribuem, em muito, para o bom desempenho do Prainsa. Somos um grupo muito jovem, mas com muito valor.

4. Sabemos que foram convidadas para a Women’s Professional Soccer League (EUA, cujo campeonato começou há um mês). Não quiseram ir?

(risos) Sabem? Houve um convite sim, mas não pude dar uma resposta positiva a essa proposta por razões óbvias. Tenho um contrato com Prainsa Saragoza a cumprir e como é lógico tem de ser cumprido.

5. Pensas regressar a Portugal?

Claro que penso regressar a Portugal! Só não sei quando, até porque a minha prioridade é fazer mais uma época em Espanha. Mas sim, pretendo regressar e se possível voltar a jogar no clube do meu coração. Não preciso dizer qual é, pois não? (risos)

Sobre o Campeonato português

 1.O que pensas sobre o Campeonato português de Futebol Feminino?

Penso que ainda está longe de ser altamente competitivo, apesar de terem sido feitas alterações nos quadros competitivos para a nova época.

2. Quais as principais diferenças, em teu entender, entre o Campeonato português e a Superliga espanhola?

Existem algumas diferenças práticas. Primeiro a Liga tem 16 equipas, entre elas equipas de grandes clubes, com grandes investimentos. Depois a competitividade é grande: é sempre difícil jogar em qualquer campo de qualquer equipa. O último classificado pode muito bem ganhar ao primeiro, nunca se sabe…

3. Vão haver algumas alterações nos quadros competitivos já para a época 09/10, tais como o aumento do número de equipas na 1.ª Divisão… Achas que vão trazer bons resultados?

Espero sinceramente que sim, que possa haver resultados com essas alterações, mas, como referi anteriormente, ainda demorará algum tempo para que todas, ou quase todas, as equipas estejam ao mesmo nível.

4. O que achas que seria importante mudar, ou como achas que o futebol feminino português podia desenvolver-se?

Esta é uma pergunta sobre a qual me canso de responder, de tantas vezes a ter repetido e sem ver resultados. Passa pelas associações, federação, clubes, patrocínios, comunicação social, etc.… Mas como disse antes, aborrece-me responder a esta pergunta porque falamos sempre do mesmo e nada é feito.

5. Achas que será possível chegar ao nível da Superliga espanhola?

Sinceramente não sei se é possível, tinha que mudar muita coisa… Para terem uma ideia, o meu clube tem três equipas femininas seniores: A, B, e C. E tem um orçamento aproximadamente de 350 mil euros para o Futebol Feminino. Aproveito para deixar uma pergunta no ar… Acham mesmo que algum clube em Portugal teria este orçamento para o Futebol Feminino, ou fariam algum esforço para isso acontecer? Eu não acho, sinceramente!

6. O que pensas do regresso do Professor Nuno Cristóvão ao Futebol Feminino português? (Por lapso estava ausente da publicação original desta entrevista.)

Penso que o regresso do Professor traz muito de positivo ao Futebol Feminino e, em particular, ao o 1º. Dezembro. Tenho pena de, por estar em Espanha, não poder voltar a trabalhar com o Professor. Da minha parte só tenho a felicitar o regresso de um grande profissional e amigo. Espero que faça um grande trabalho!

Sobre a Selecção Nacinal AA

1. Da prestação no Mundialito 2009 que balanço fazes?

O balanço que faço do Mundialito de este ano é muito positivo. Ganhámos o nosso grupo com 3 vitórias, o que até então não tinha acontecido. Estivemos perto de conseguir a melhor classificação de sempre no último jogo contra a Finlândia, mas acabámos por perder nos penalties. Há que louvar o trabalho de todos: as jogadoras pela prestação de elevada qualidade que tiveram, e a equipa técnica pelo o trabalho que tem vindo a desenvolver com a nossa Selecção.

 2. E em termos pessoais?

Em termos pessoais só tenho de estar satisfeita com o meu desempenho. Mas acima de tudo quero destacar o trabalho de todas as minhas colegas, porque sem a ajuda delas não seria possível ter conseguido bons resultados individuais. Destaco também o bom ambiente que existe no balneário. O meu objectivo será sempre estar em perfeitas condições físicas e mentais para poder representar a nossa selecção e trabalhar para continuar a merecer a confiança da seleccionadora.

3. Que conselhos, como internacional AA e profissional de futebol, darias às jogadoras mais novas que têm o sonho de chegar a esses dois patamares?

Em primeiro lugar devo referir que só com muito trabalho e espírito de sacrifício é possível chegar onde chegámos. Não pensem que foi fácil chegar até aqui, nada nesta vida é fácil e muito menos no Futebol Feminino. Depois, é muito importante acreditar que é possível realizar os nossos sonhos. Eu realizei alguns, mas lutei muito por eles! Ainda hoje, e já com 76 internacionalizações, sinto uma emoção muito grande quando visto a camisola da Selecção, tal como se fosse a primeira vez. Um dia sonhei representar a Selecção Nacional e consegui. Orgulho-me muito e honro-a sempre. Nunca deixem de procurar realizar os vossos sonhos. Nada é impossível.

Queres acrescentar alguma coisa que aches importante que conheçamos?

Quero agradecer o convite para esta entrevista e desejar muito sucesso ao blogue. Espero que sigam esta linha de escrita saudável e transparente, sempre com o fim de ajudar o Futebol Feminino.

Sabendo que se trata de um blogue feito por pessoas do 1.º Dezembro, quero também desejar todo o sucesso desportivo. Continuem a ser e a dar a imagem que sempre deram, a de VERDADEIRAS CAMPEÃS!

Até sempre!

Bem haja a todos

Edite Fernandes

Edite, numa partida contra a equipa de futebol feminino do mítico Barcelona (2008/2009)

Edite, numa partida contra a equipa de futebol feminino do mítico Barcelona (2008/2009)

Anúncios

About S.U. 1º Dezembro | Futebol Feminino

Campeãs Nacionais de Futebol Feminino | National Women's Football Champions Ver todos os artigos de S.U. 1º Dezembro | Futebol Feminino

Comments are disabled.

%d bloggers like this: