“Ausência de referências”, por Anabela Mendes

Em período de férias forçadas (já que gostaríamos de mais e melhor competição), é forçoso surgirem novas vozes, novas notícias.

Como tal, a pedido do 1dezembro.wordpress.com, Anabela Mendes aceitou, muito amavelmente, o desafio para uma pequena reflexão sobre a actualidade do Futebol Feminino em Portugal. Abaixo apresentamos então o resultado deste repto.

Para quem não sabe, para além de ter sido jogadora durante mais de 12 anos, representando clubes como o União de Coimbra, Trajouce ou o Sporting, foi também directora das equipas femininas do Clube Futebol Benfica durante 8 épocas, tendo somado vários títulos e contribuído para formação de grandes nomes do Futebol Feminino nacional.

Anabela Mendes representada a partir de www.photofunia.com

Anabela Mendes representada a partir de http://www.photofunia.com

“Ausênca de referências” (2009)

Não sou saudosista e quando, em conversa com antigas colegas dos tempos de jogadora, ouço referências do tipo ‘no nosso tempo é que era’ contraponho de forma veemente.

 

Tive a felicidade, após ter deixado de jogar, de me ter sido dada a oportunidade de continuar ligada ao futebol feminino, coisa que eu sonhava praticamente desde que comecei a jogar. Tanto que, hoje, as minhas recordações mais vivas, mais emotivas, são as de dirigente, não as de jogadora – e não tem que ver com o facto de serem as mais recentes, antes sim por serem aquelas para as quais me senti sempre com mais apetência. E se eu gostei de jogar…!

 

[Não me esqueço, e provavelmente um dos grandes erros da sociedade é o esquecimento frequente, que foi a Carla Cristina que me referenciou ao director do Futebol Benfica. Ironicamente, na prática, não tive grande oportunidade de lhe agradecer, porque ela transitou para o 1º de Dezembro, passado pouco tempo.]

 

Essa experiência de dirigente permitiu-me acompanhar de perto a evolução que tem tido o futebol feminino. Ainda que esteja longe do que se é permitido sonhar, muitas são as diferenças em relação ao ‘meu/nosso tempo’. E isto serve para colocar dois pontos numa questão muito recorrente, especialmente quando se quer justificar a falta de vontade para se fazer mais. A saber: 1º) antigamente não era melhor e 2º) agora não é assim tão mau! (Aquilo que sobrava em disponibilidade para a prática, no passado, porque na verdade a sociedade tinha menos oferta ao nível dos tempos de lazer, hoje é compensado com maior qualidade a nível do treino e uma maior abertura para as mulheres jogarem futebol.)

 

Provavelmente, um dos problemas passa pela ausência, nas equipas, de alguém que faça essa ponte passado/presente, sem ser enfadonho nem moralista. Mas que, na devida conta e medida, faça perceber a quem neste momento pratica a modalidade, que é sua obrigação lutar pelo seu desenvolvimento, apesar de todas e quaisquer circunstâncias menos favoráveis.

 

Mais do que alteração de quadros competitivos, ou sendo condescendente, de forma igual, torna-se necessário envolver todas as pessoas ligadas ao futebol feminino num movimento concertado de exigência, disponibilidade, abnegação e espírito de grupo. Sem esta predisposição para a ‘luta’, quaisquer alterações, ao nível da estrutura dos campeonatos, redundam invariavelmente em fórmulas que necessitam ciclicamente de serem alteradas, porque não resultam. Tirando o caso da formação, que é latente, gritante e carece de uma intervenção eficaz da parte de Associações e Federação, toda a estrutura sénior do futebol feminino precisa de ter consciência que é necessário mais trabalho. Porque é, efectivamente, do trabalho mais rigoroso e mais empenhado, que os resultados dessas alterações se vão fazer sentir.

 

Portanto, há que abolir essa expressão que algumas jogadoras tanto gostam de referir, quando se fala das dificuldades da modalidade: sacrifício. Mais do que uma palavra, é mesmo uma expressão. E é a expressão de quem, na maioria das vezes, gosta muito que as coisas lhe sejam permitidas sem ter que lutar muito por elas. Por isso, ‘sacrifício’ não é a palavra certa, quando nos referimos a tudo aquilo que fazemos porque gostamos e do qual retiramos muito prazer. E não será assim que se deve estar numa modalidade amadora? Arriscar-me-ía a dizer, na vida, mesmo!

 

O meu muito obrigada ao blog do 1º de Dezembro, na pessoa da Inês Quintanilha, pelo convite à partilha!

 

Anabela Mendes

Anúncios

About S.U. 1º Dezembro | Futebol Feminino

Campeãs Nacionais de Futebol Feminino | National Women's Football Champions Ver todos os artigos de S.U. 1º Dezembro | Futebol Feminino

Comments are disabled.

%d bloggers like this: