Crónica de Maria João Xavier

Maria João xavier

Maria João xavier

Texto escrito para o site Desporto 10, pela ex-sintrense e internacional “AA” Maria João Xavier. A ex-jogadora, que foi em tempos dirigente da extinta equipa do Vitória Futebol Clube, expõe uma perspectiva diferente sobre o panorama do Futebol Feminino nacional, sem recorrer às habituais, quase clichés, justificações  como a  inexistência de resultados ou o quão conservadora é a sociedade portuguesa.

Crónica Futebol Feminino: “ataque organizado” à sua divulgação

Há umas semanas, no início de Janeiro, foi publicada uma reportagem num jornal diário, (na revista que acompanha a sua edição de domingo) dedicada ao futebol feminino. Como sabem, este é um tema que me é muito querido, pelo qual tenho uma enorme estima e elevada consideração por todos que proclamam (ou já proclamaram) esta causa.

Li e reli, com toda a atenção, a reportagem – pois os exemplos na comunicação social são tão escassos (ou inexistentes) – que achei que me tinha enganado quando comprei o dito jornal. Mais espantada fiquei quando vi que era capa da revista! Se bem que pela fotografia da capa não me apercebesse de imediato. Ainda assim, achei mesmo que estava febril!

 

Mas não, felizmente, foi mesmo verdade! O conteúdo da reportagem, esse era previsível de causar alguma fricção. Não que eu considere isso um problema, bem pelo contrário. Mas sobre isto não me alongo porque então é que não saímos daqui.

 

Nos nossos dias ouve-se falar muito em benchmarking… ora talvez seja isso mesmo que o futebol feminino precisa! Há que ponderar, seriamente, novas soluções e novas estratégias e transpô-las para a prática, para ver se saímos, de modo sistemático e consolidado, deste marasmo em que nos encontramos.

 

É que a temática futebol feminino faz-me pensar numa pescadinha de rabo na boca… as dificuldades estão (mais que) identificadas, as necessidades já foram (mais que) discutidas e tipificadas… começa-se a desenhar um projecto com soluções e alterações de relevo… mas, como implica a afectação de recursos, especialmente de recursos económicos, “arquiva-se”, novamente, numa gaveta e volta-se ao início da discussão!

 

As alterações propostas aos quadros competitivos dos campeonatos nacionais de futebol feminino foram aprovadas. É um passo, concordo (já se sabia que o modelo em vigor estava obsoleto e promovia tudo menos a competitividade… valeu a experiência para mostrar isso mesmo).

 

Mas, e perdoem-me a frontalidade, até quem de direito não reconhecer que este cenário de “quase abandono” tem que terminar, não haja ilusões…

 

Não obstante a afirmação anterior, enquanto reportagens como a supracitada, espaço nos vários canais televisivos (como ocorreram nas últimas semanas), forem publicadas e disponibilizados, respectivamente, para que se fale de futebol feminino, então estamos a assistir a uma nova tentativa de ataque organizado (utilizando a gíria futebolística), à divulgação que o futebol feminino merece na sociedade portuguesa.

        

É importante chegar às pessoas, há que lhes dar a conhecer e transmitir que nós também temos direito às mesmas oportunidades para praticarmos o desporto que escolhemos (não é nenhum discurso feminista, é a realidade), e especialmente, há que passar a mensagem que o futebol feminino existe há muitos e largos anos, joga-se exactamente como o parente masculino, tem uma Selecção Nacional A e uma Sub -19, tem várias atletas com mais de 75 internacionalizações na Selecção A, … e, alguém sabe?

 

Há alusão em algum lado a estes factos? E não me digam que não se fala porque não tem resultados dignos disso. Porque isso seria outra questão que iria ocupar muito tempo!

 

Um inquérito de rua deveria demonstrar resultados engraçados face ao (des) conhecimento real que os portugueses têm do futebol feminino!

 

Bem, antes que me acusem de ser injusta, por vezes são publicadas notícias de 5 linhas, num quadrado de 5x5cm, com letra tamanho 8!

 

Parece-me que o futebol feminino merece muito mais! Até por respeito a quem o pratica e nas condições em que o faz! Aparecem, ainda, algumas notícias mais alargadas, especialmente de atletas que vão jogar para o estrangeiro. É verdade, também temos atletas a jogar em campeonatos estrangeiros. Qualidade não nos falta!

 

Já devem ter ouvido falar do Mundialito de Futebol Feminino, que se realiza desde 1994, em Março, no Algarve, também designado de Algarve Cup? Essa é a oportunidade de excelência para se falar de futebol feminino em Portugal. Por essa altura, Portugal torna-se o centro do mundo do futebol feminino… reúne as melhores selecções e atletas do mundo. E quando digo melhores, refiro-me “somente” à campeã olímpica, mundial e europeia! Significativo!

 

Já agora, se consegui despertar a vossa curiosidade, estejam atentos às notícias que irão surgir por inícios de Março! E, se tiverem paciência, vejam o que aparece depois desse período!

 

Ou então, melhor ainda… aproveitem e passem pelo Algarve para ver futebol de elevado nível. O ano passado, a nossa selecção (de todos nós também, certo?), alcançou resultados positivos, contrariando as edições anteriores. Ainda assim, resultados longe do que acredito, que pode (voltar a) fazer!

 

Assim o entenda e decida quem manda!”

 

Vamos estar particularmente atentas no mês de Março!

 

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